quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Análise do Filme 'O Núcleo'




Para baixo e avante!
A superciência em O Núcleo – Missão ao centro da terra


Por Patrícia Mariuzzo

A primeira aparição do Super-Homem fora dos quadrinhos aconteceu no rádio. Era 1940 quando a rádio norte-americana Mutual lançou um programa de 15 minutos no qual o personagem falava “Para o alto e avante!” para demonstrar que estava voando. Alguns anos mais tarde, os desenhos animados e a primeira adaptação para a TV mantiveram a frase. Em Superman, clássico do cinema, de 1978, estrelado por Christopher Reeve (1), o herói de capa vermelha não avisa quando vai voar, entretanto, é o seu vôo que muda os rumos da história. O ponto alto do filme acontece quando o super-herói recebe a notícia da morte de sua amada Lois Lane em um terremoto provocado pelo vilão Lex Luthor. Desesperado, o super-herói gira várias vezes em torno da Terra na direção inversa à sua rotação, cada vez mais rapidamente, até fazer com que o planeta passe a girar em sentido contrário. Com isso ele consegue fazer com que o tempo recue, trazendo Lois de volta à vida.

Em O Núcleo, Missão ao Centro da Terra, produção norte-americana de 2003, dirigida por Jon Amiel e estrelada por Aaron Eckhart e Hilary Swank, não é um super-herói que muda a rotação do planeta, na verdade heróis e vilões não são tão facilmente identificados. Não se trata apenas de um personagem desonesto ou ambicioso ou de um herói com capa esvoaçante, forte e de caráter insuspeito. Em O Núcleo, herói e vilão tem o mesmo nome: ciência ou, melhor dizendo, uma super-ciência. Conforme explica Monteiro (in Oliveira, 2005), a ciência no cinema cria, ao mesmo tempo em que destrói, ela é a solução, mas também problema.

A ficção científica, mesmo sendo considerada um gênero fantasioso, caminha lado a lado com a sociedade. Questiona seus valores, antecipa suas mudanças e faz questão de nos lembrar, ao cutucar-nos o tempo todo, como a tecnologia pode ser, ao mesmo tempo, algo benéfico, mas também muito perigosa para o homem”.(Monteiro, p. 172, in Oliveira, 2005)

O cinema é um meio (e dos mais potentes) de circulação de conhecimentos e valores culturais. Em suas diversas formas narrativas (documentários, ficção científica etc.) pode revelar a penetração da ciência em nossa sociedade. É por este motivo que eles são considerados pelos estudos culturais da ciência (2) como um ótimo material para análise da cultura e da história da ciência. (Oliveira, 2005). E não se trata apenas da visão que produtores e diretores têm em relação à ciência, mas da visão que eles imaginam que o público tem. Nesta produção cinematográfica é possível perceber uma ciência investida de grande poder. Um poder que cria grandes problemas a ponto de colocar em risco a existência do planeta e, ao mesmo tempo, o poder de resolver tudo e salvar a todos.

O longa-metragem começa com cenas na cidade de Boston onde pessoas começam a morrer inesperadamente, sem explicação. Mais tarde o expectador descobre que todas usavam marca-passo e que o mau funcionamento do aparelho devido a interferências eletromagnéticas causou as mortes. Mais tarde, em Londres, pombos aparentemente perdem a noção de navegação e se atiram contra os prédios, vidraças, carros, causando inúmeros acidentes. Apostando nos efeitos especiais, uma tempestade elétrica destrói nada menos do que o Coliseu, em Roma. Na cidade de São Francisco, a estrutura de ferro da Ponte Golden Gate, começa a derreter para, em seguida, mergulhar no oceano. Todos estes fenômenos estão acontecendo porque o núcleo do planeta Terra parou de girar, afetando o campo eletromagnético do planeta e, por conseqüência, a ordem natural de vários fenômenos como a orientação de vôo dos pássaros, a proteção do planeta contra a radiação solar e o funcionamento de todos os aparelhos eletrônicos, incluindo um ônibus espacial da Nasa que tem sua rota de pouso modificada e é forçado a descer no leito de um rio, em plena Los Angeles.

A super ciência que salva
A solução: um grupo de cientistas recrutados pelas Forças Armadas norte-americanas no melhor estilo Projeto Manhattan (3) fazem uma viagem ao centro da terra, ao núcleo, levando uma poderosa bomba atômica (na verdade são várias ogivas nucleares), cuja explosão, eles acreditam, será capaz de reativar o movimento do núcleo e salvar o planeta. O grupo é composto por três cientistas norte-americanos, um deles negro, um cientista francês (especialista em armas atômicas) e dois pilotos da Nasa, sendo um deles uma mulher.

Para concretizar sua missao salvadora da ciência o cinema transforma cientistas em heróis. É o que acontece com Josh Keyes, geofísico e professor universitário que sai da sala de aula com alunos entediados diretamente para a missão de salvar o planeta como “terranauta” do Virgílio (4), uma espécie de nave feita de um novo material resistente a altas temperaturas, capaz de chegar ao núcleo do planeta.

Beck: Você é mesmo professor de faculdade? Não é da CIA ou de um desses lugares de três letras.
Josh: Não, eu sou um professor chato de faculdade. Você se enganou.
Beck: Aquilo foi o maior ato de coragem que eu já vi.

Ocorre um processo de heroificação e criação de ícones na figura destes cientistas. Na análise do filme Os Eleitos (in Oliveira, 2005), Andrade, Magalhães e Nogueira explicam como o cinema se apropria da figura do herói. Segundo eles, no auge do projeto espacial norte-americano, durante a chamada Guerra Fria, a Nasa transforma astronautas em heróis nacionais, processo retratado no filme Os Eleitos. E a arte imita a vida, ou seria o contrário? O cinema usa a realidade como matéria prima e a ciência precisa de imaginação para avançar.

O físico Marcelo Gleiser escreveu em sua coluna semanal no jornal Folha de São Paulo, em um artigo em que discutia a relação entre a ciência e Hollywood, que existe uma relação dual entre o imaginário e o real, que é inspiradora não só para os que vão ao cinema, mas para os que fazem ciência e vão ao cinema. (Monteiro, p. 162, in Oliveira, 2005).

O herói é a personificação do ideal do american way of life: jovem, corajoso, casado, crente em Deus e defensor da família e da pátria. Neste filme o herói Josh Keyes é solteiro, provavelmente para explorar a tensão sexual entre ele e Beck (Hilary Swank). A valorização da família é passada para o especialista em armas atômicas Sergie Laveque, que em uma das seqüências do filme deixa clara sua intenção de se sacrificar por sua família, o que de fato ocorre. O herói enfrenta todo tipo de desafio com engenhosidade de um líder e com a alma de um aventureiro, representações típicas de uma grande confiança na ciência. Sempre disposto a dar a vida, seja pelo companheiro, como na seqüência em que Josh abre mão do seu oxigênio para que o Dr. Edward conserte a nave, seja quando ele encabeça a resistência do grupo em utilizar um dispositivo construído secretamente pelo governo americano para provocar abalos sísmicos. Na verdade, o núcleo da Terra parou de girar exatamente por causa dos experimentos com este dispositivo.

O planeta Terra é dominado por um enorme campo magnético que a transforma em um imã gigante. A bússola encontra as direções na superfície por causa deste magnetismo. A agulha que sempre aponta na mesma direção está magnetizada. Ela tende a se alinhar com o campo magnético terrestre. Pesquisas geológicas afirmam que a parte central do planeta seja constituída por ferro fundido. Correntes elétricas dentro deste núcleo seriam responsáveis pela existência do campo magnético.

Em O Núcleo o discurso técnico da ciência é investido de um apelo emocional. As soluções para os inúmeros problemas que vão surgindo ao longo da viagem são todas baseadas em princípios científicos, com direito a analogias e todas as liberdades que o cinema toma em favor de uma narrativa emocionante e atraente para o expectador. O cinema e a ciência não são mundos incompatíveis, mas neste filme o rigor científico não caminha necessariamente com o entretenimento. Um hacker que controla sozinho todo o fluxo de informações da internet para evitar vazamento de informações sobre o projeto que é mantido em segredo é um dos (muitos) exemplos disso.

Super-ciência: o vilão é perdoado
De acordo com Wortnann (2008) as produções midiáticas culturais constituem-se como instâncias que conformam e produzem representações do mundo e também de ciência, ou seja, elas tendem a dizer o que a ciência é. E, se em O Núcleo a ciência é redentora, ela também é perigosa. A força desconhecida que fez a rotação do núcleo parar é, na verdade, uma conspiração governamental num projeto secreto militar chamado Destiny que pretendia usar arma que provocaria terremotos para atacar o inimigo. Mas os danos que o projeto traz revelam-se imprevisíveis: tempestades elétricas, interferências nos aparelhos eletrônicos, radiação solar, são alguns que o filme mostra. O resultado do avanço científico que criou uma arma tão poderosa é a destruição do planeta.

O personagem Conrad Zinmsky, interpretado pelo ator Stanley Tucci, é a personificação da ciência a serviço das (más) intenções armamentistas do governo. Arrogante e cínico, ele é acusado inclusive de roubar a pesquisa de outro cientista, Edward Brazleton (Delroy Lindo), inventor da nave Virgílio que se junta a eles na missão ao centro da terra. Brazleton expressa um estereótipo muito comum no cinema de ficção científica, o do cientista solitário e brilhante, que leva uma vida reclusa, isolado da sociedade em seu laboratório e que dedica a vida a pesquisas secretas, perigosas e inacessíveis ao entendimento da maioria das pessoas, mas que se mostram úteis no momento certo. Isto é exatamente o que aconteceu com Virgílio. Bastaram três meses e US$ 50 milhões (em cheque) para transformá-lo em realidade. O cientista solitário e recluso nos remete a mitos mais antigos da literatura como Victor Frankenstein, de Mary Shelley (1818) ou o Dr. Mareau, de H.G. Wells (1896), ambos já adaptados para o cinema mais de uma vez.

Mas se a ciência de cunho fortemente bélico é responsável pela catástrofe que dá mote ao filme, ela é absolvida quando o movimento do núcleo é reativado utilizando ogivas nucleares. Assim, o que fora idealizado para destruir, salva. O diretor recupera inclusive o clichê “apertar um botão” com closes no botão (sempre) vermelho que acionaria o tal dispositivo que detona terremotos e também nas mãos da Major Rebecca sentada entre dezenas de botões, por meio dos quais alguns membros da expedição perecem e as bombas nucleares são lançadas no núcleo, que lembra um grande sol amarelo-avermelhado. A cena que talvez sintetize esta redenção da ciência é aquela na qual Zinmsky se sacrifica pela missão e morre, condescendente, dentro de um dos compartimentos da nave junto em companhia de uma das bombas. Antes ele insistira para que o grupo abortasse a missão para que ele se salvasse. “Eu não sei vocês, mas eu tenho muito a perder”, diz ele.

As transposições e as vivências que a linguagem cinematográfica possibilitam são tão marcantes, que muitas vezes elas se tornam as referências profundas e comuns pelas quais a ciência e a tecnologia são percebidas por grande parte da sociedade. (Oliveira, 2001, p. 08)

No filme O Núcleo, lançado em 2003, a ciência tem papel central. É uma ciência superlativa, poderosa, como os super-heróis dos quadrinhos tão caros ao cinema. Assim como o Superman, ela também pode fazer o planeta parar e fazer o planeta girar de novo.


O Núcleo – Missão ao centro da Terra
Ficha Técnica
Título Original: The Core
Direção: Jon AmielGênero:
Ficção Científica
Tempo de Duração: 135 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2003

Elenco
Aaron Eckhart (Josh Keyes)
Hilary Swank (Major Rebecca "Beck" Childs)
Delroy Lindo (Dr. Edward Brazleton)
Stanley Tucci (Dr. Conrad Zimsky)
DJ Qualls (Rat)
Tchéky Karyo (Sergei Laveque)
Bruce Greenwood (Coronel Robert Iverson)
Alfre Woodard (Stick)
Nicole Leroux (Mãe)
Gregory Bennett (Terry)
Dion Johnstone (Tenente Timmons)
Christopher Shyer (David Perry)
Richard Jenkins


Notas

1 Superman, direção Richard Donner, 1978. Além de Christopher Reeve, o elenco tinha Marlon Brando como Jor-El e Gene Hackman, no papel do vilão Lex Luthor.

2 Segundo Veiga-Neto e Wortmann (2001), na perspectiva dos estudos culturais não se estabelece qualquer distinção entre “conhecimento científico” e “senso comum”, entre “alta cultura” e “baixa cultura”, entre cultura erudita e popular. Daí a possibilidade de ter na produção cinematográfica também uma produção cultural legítima e plena de significados.

3 Durante a Segunda Guerra Mundial este projeto norte-americano recrutou dezenas de cientistas para desenvolver e construir a primeira bomba atômica. As bombas jogadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki foram criadas dentro Projeto Manhattan. Sobre o recrutamento de cientistas pelo Estado no cinema ver também a análise do filme Uma mente brilhante, de Ubiratan D’Ambrosio, em Oliveira, 2005.

4 No clássico A Divina Comédia, é o poeta da antiguidade Virgílio que conduz Dante em uma viagem ao centro da terra. Iniciada nos portais no inferno, a viagem pelo mundo subterrâneo os levaria aos pés do monte purgatório e depois até as portas do céu.


Bibliografia
Oliveira, Bernardo Jefferson (org). História da ciência no cinema. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2005.

Veiga-Neto, Alfredo; Wortmann, Maria Lucia. Estudos Culturais da ciência e educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001.

Wortmann, Maria Lucia. “A visão dos estudos culturais da ciência”. ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Ciêntífico, n° 100, julho 2008.

Escosteguy, Ana Carolina. “Uma introdução aos estudos culturais”. Revista
Famecos, Porto Alegre, n° 9, dezembro 1998.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito Bom!!!