Existe vida inteligente em Hollywood?
Por Wagner Cantori
Estrelado por Jodie Foster no papel de Dra. Eleanor Ann Arroway, O Contato relata a trajetória de uma jovem cientista em busca de um sonho acalentado desde a infância: saber se existe ou não vida em outros planetas e se é possível estabelecer contato com eles. Após muitas dificuldades e por conta de seu idealismo e persistência, Eleanor consegue receber um sinal transmitido a partir da estrela Vega, distante 26 anos-luz da Terra. A mensagem é uma cadência de impulsos sonoros representando números primos, o que evidencia não o acaso e, sim, um código pensado por algum tipo de inteligência. Por trás desses sons existem as imagens da primeira grande transmissão de TV, a dos jogos olímpicos de Berlim em 1936 na qual aparece Hitler em um discurso. A mensagem também continha instruções para a construção de uma máquina de transporte espacial. Alguns anos mais tarde, a máquina é construída e a Dra. Arroway não ganha a concorrência para viajar até Vega. O escolhido é David Drumlin (Tom Skerrit), o dirigente do conselho nacional de pesquisa, que nunca apoiou o trabalho de Arroway.
Embora estejam presentes no filme vários conceitos de física e até Einstein tenha sido evocado para explicar alguns, existem temas que são pertinentes a ciência de um modo amplo, seja qual for o domínio de estudo. Entre eles a divulgação científica, a política e o amparo à pesquisa, a relação entre ciência e religião e também a questão de gênero, no caso, a mulher-cientista.
Ao divulgar os resultados para o mundo todo, os cientistas da equipe da Dra. Arroway começam a perceber os efeitos devastadores na sociedade. O que era de suma importância científica ganha a conotação de espetáculo massivo. O impacto da divulgação causa um choque social, um desfile de diversidades culturais. Desde fundamentalistas religiosos que anunciam algo apocalíptico até músicas e danças com o tema Vega. O exército e a defesa nacional são acionados. A pesquisa começa a ser valorizada e outros tentam tomá-la como propriedade, deixando a real autora em segundo plano, já que visibilidade e poder estão em jogo.
Antes de receber a mensagem de Vega, Dra. Arroway teve os recursos governamentais cancelados, justamente por produzir um tipo de ciência que gerava descrédito e desinteresse para a maioria e, principalmente, para o dirigente do conselho nacional de pesquisa que traçava planos de não mais apoiar as pesquisas básicas e sim focar recursos nas aplicadas. A cientista parte, então, em busca de financiamento privado e com êxito continua seu projeto. Depois da mensagem e da repercussão, o cenário de importância da pesquisa tem uma nova composição. O laboratório, no México, locado com verbas privadas, agora, é requerido pelo governo americano que assume a frente do projeto e David Drumlin, o cientista-executivo, que nunca acreditara no pioneirismo da pesquisa se envolve profundamente, mas apenas por status, chegando a ser apresentado como “o responsável pela equipe que fez a descoberta”. O filme traz uma forte crítica à questão política e os recursos que envolvem os estudos científicos. Quem decide onde investir? Quais pesquisas “merecem” receber ou não o financiamento? São questões não só hollywoodianas, mas que fazem parte da realidade científica em áreas marginalizadas por não ser a notícia do momento.
O “namoro” entre ciência e religião não é algo novo e sim uma discussão recorrente. No filme esse relacionamento é materializado no affair entre Eleanor (ciência) e Palmer Joss (religião), um escritor religioso autor de best-sellers e assessor para assuntos religiosos da casa branca. Ciência e religião sempre tiveram pontos de convergência e divergência, como num romance, onde os corpos se fundem em um, mas também há rompimentos que provocam grandes distâncias. Palmer se sente atraído por Eleanor desde o início e ela se esquiva. Acontece um primeiro envolvimento quando sai da boca de Palmer palavras que se filiam à rede de sentidos de Eleanor: “Se estamos realmente sós, seria um grande desperdício”, palavras também ditas pelo pai da cientista, se referindo à possível existência de civilizações em outros planetas. É interessante notar que o presente dado por Palmer a Eleanor é uma bússola. Esse símbolo do relacionamento dos dois, hora está com um, hora com outro no percurso da história. Assim, a pergunta implícita parece ser: quem dá o “norte” a quem? A ciência guia a religião ou vice-versa? Os dois pólos são amplamente explorados pela narrativa já que Eleanor perde a primazia da viagem a Vega, justamente por não acreditar em Deus e assim não ser uma fiel representante americana, uma população que se intitula religiosa. David é o tripulante escolhido, por falsamente se declarar como religioso.
A primeira viagem tem seus planos frustrados por um atentando terrorista de um fanático religioso que leva à morte parte da equipe do projeto, além de David Drumlin que é enterrado com pompas de mártir-herói. Só então é que Arroway descobre que uma segunda máquina foi construída no Japão e parte para sua viagem a Vega.
Na viagem em que fez por entre os “buracos de minhocas”, que conforme disse o alienígena para Arroway, no encontro que tiveram em Vega, não foram construídos por eles, simplesmente os encontraram, Arroway, se maravilha com tanta beleza e fica sem palavras, dizendo apenas que deviam ter enviado um poeta para o espaço, assim os relatos seriam mais fiéis.
Na dualidade entre ciência e religião, Arroway, descobre que quando não há provas existe a fé. A câmera acoplada em sua cabeça não gravou nenhuma imagem, apenas interferências. O tempo em que ficou na máquina depois de ser lançada foi uma fração de segundos aqui na Terra, mas para ela mais ou menos 18 horas. A cientista tentou mostrar teorias para essa diferença entre o tempo terrestre e de Vega, mas sem provas concretas caiu no descrédito. Embora, em uma cena entre a assessora do presidente americano e o secretário de segurança nacional fique claro que a viagem realmente aconteceu, já que a câmera de Arroway gravou 18 horas de interferência e não apenas frações de segundos. Mas essa informação ficou restrita apenas aos arquivos secretos do caso.
O “alienígena” e o “outro planeta” foram mostrados em O Contato de forma muito sutil e poética, já que o ser que encontra Eleanor em Vega tem a imagem do seu pai e o ambiente do planeta é um desenho de infância da cientista. Tudo isso, segundo o alienígena, foi escolhido para criar uma atmosfera familiar e diminuir os impactos do encontro. Diferente de outras produções o filme não se baseia em megaefeitos especiais e a criação de monstros “preocupados” em invadir e destruir a Terra e, sim, em debater aspectos pertinentes ao mundo científico. A narrativa fomenta a tênue possibilidade de vida inteligente em outros planetas. O Contato traz a tênue possibilidade de vida inteligente em Hollywood.
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