quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Análise da trilogia 'De volta para o Futuro'



O amor pode barrar a ciência?

Por Marcel Stefano

Máquina do tempo. Quem, um dia, não quis poder usar uma para aproveitar melhor algum momento especial ou desfazer um ato praticado? Nos filmes 'De volta para o futuro 1, 2 e 3', Christopher Lloyd e Michael J. Fox têm uma máquina do tempo à disposição para ir e vir ao longo dos anos e da história.

Filmada em 1985, a primeira versão da trilogia conta a história do estudante de colégio Marty McFly e do cientista Doc Brown, uma espécie de superamigo mais velho de Mc Fly. E começa com a tentativa deles de usar a máquina do tempo - construída em um carro DeLorean - no estacionamento de um supermercado.

Por ter roubado plutônio de terroristas líbios, para realizar o experimento, o cientista é morto ali no estacionamento e McFly, acidentalmente, acaba indo parar em 1955, quando usava o carro para fugir dos terroristas e não ser morto também.

Já em 1955, McFly se vê em apuros. Ele fica sem combustível adequado - plutônio -'energia' não disponível tão facilmente em 1955 – para voltar para 1985. Para resolver o problema, ele procura ajuda de seu (futuro) amigo Doc Brow.

Durante sua passagem pelo passado, Mc Fly acaba acidentalmente influenciando na história de seus pais, colocando em risco sua própria existência no futuro, uma vez que sua mãe se apaixona por ele e, sem o encontro de seu pai e sua mãe no passado, ele começa a desaparecer, pois nem irá nascer no futuro.

Por conta desse problema, McFly precisa reorganizar a história para que o futuro seja como ele presenciou antes de ir para o passado.

Essa discussão sobre influenciar ou não o passado para rearranjar o futuro é tema de toda a trilogia. O cientista Doc Brown inúmeras vezes briga com seu pupilo adolescente para que ele não tome atitudes no passado de forma que mude a história futura. “Saber sobre o futuro pode ser perigoso”, diz Doc a Marty, ainda na primeira parte da trilogia, quando este tenta dar informações sobre o futuro e evitar que ele, Doc, fosse assassinado pelos terroristas.

Mas o que se vê no filme é uma visão enviesada. Na trama, a "história correta" é sempre aquela observada pelo cientista e por seu pupilo. O conselho de não influenciar na história é sempre quebrado quando as coisas lhes convêem e se o resultado (no futuro) fica melhor para um ou outro.

Com os problemas causados pelo acaso, McFly se esforça para conseguir que seu pai e sua mãe se encontrem no baile e, com isso, o nascimento dele (McFly) esteja garantido no futuro. Mas o jovem não se preocupa muito em alterar o rumo da história de forma que seu pai vire um cara bem sucedido e não um "bananão" como realmente era.
O cientista Doc Brown também, apesar de todas as suas teorias sobre a mudança do passado resultando no futuro, descumpre as regras para se dar bem. Prova disso é que Doc lê a carta deixada por McFly antes de voltar para o futuro e, assim, no dia do ataque terrorista, se protege com colete a prova de balas. Já no futuro, por conta das mudanças planejadas de McFly, a família dele se transforma: passa de explorado a explorador, deixando o inimigo de juventude Biff (que antes da mudança era o explorador), como o explorado.

O filme De volta para o futuro 2 é a continuidade cronológica do primeiro. Nele, essa questão ética enviesada de mexer no passado e no futuro para obter vantagens continua em discussão. Nesta segunda parte da trilogia, o cientista Doc vai para 2015, vê problemas no futuro dos filhos de McFly e volta para 1985 para contar sobre os problemas que viu e pedir ajuda na resolução deles. E, deixando de lado os conselhos que deu no primeiro filme, Doc ajuda McFly a alterar o passado para solucionar o futuro, mas prejudica o "andamento normal" da história de forma que prejudica a vida de outro: o neto de Biff.

Ainda em 2015, McFly vê a oportunidade de obter informações privilegiadas sobre esporte e ganhar dinheiro no passado. Doc, então vocifera: "não inventei a máquina do tempo para lucrar. O objetivo é entender melhor a humanidade. Onde estivemos, aonde vamos, os problemas e as possibilidade, os perigos e a promessa e, talvez, até a resposta para a pergunta universal: por quê?". Ali, ele – como cientista - repreende McFly sobre o uso da ciência para ganhar dinheiro, mas não reconhece que somente o fato de sair do passado (1985) para alterar o futuro problemático familiar de McFly (em 2015) já representa o uso da ciência para um ganho particular e desrespeitoso à história "natural".

Esse problema “de viés” sobre a história fica mais evidente nesta segunda parte, quando Biff (já velho em 2015) os segue e, aproveitando um descuido, rouba a máquina do tempo, volta ao passado (para 1955) e replaneja a vida de sua família de forma que ele vira milionário.

Ao voltar a 1985, Doc e McFly percebem que o passado foi alterado e o que encontram é diferente de quando saíram. Descobrem o uso da máquina por Biff e vão até o passado para “endireitar” o “presente”. Nesta parte da trilogia, o cientista teoriza e se refere à mudança da história como a criação de um universo paralelo sempre que a SUA história (ou seja, aquela que ele quer) é alterada. Quando a alteração é feita por ele, esse universo paralelo deixa de existir, mesmo que seja só uma questão de viés o que separa uma de outra.

Na terceira e última parte de ‘De volta para o futuro’, desta vez é Doc Brown que tem problemas. Tendo o carro-máquina do tempo atingido por um raio, ele vai parar em 1885, no faroeste e, por lá fica. Mas tem alguns problemas. Ciente (no futuro) da história ocorrida no passado (o assassinato de Doc Brown), McFly usa a máquina do tempo para ajudar o cientista-guru. Então surge um problema: Doc Brown se apaixona e resolve jogar por terra toda a sua teoria defendida até então – de “não interferir no continuum espaço-tempo”.

O problema é, inclusive, tema de discussão entre os personagens. Ainda sem conhecer a mulher por quem se apaixonaria, Doc recebe a informação de que iria se apaixonar à primeira vista, ao que refuta: “A idéia de eu me apaixonar à primeira vista é uma idéia romântica. Não há racionalidade científica neste conceito”. Ao que McFly emenda: “vamos lá, Doc, isso não é científico”.

Depois de conhecer a moça e, como a história previa, se apaixonar à primeira vista, o cientista Doc Brow desiste de viajar para o futuro. Apaixonado, ele informa a seu pupilo que não irá mais viajar e, diante da resistência, diz: “O futuro não está escrito, ele pode ser mudado. Qualquer um pode fazer do futuro o que quiser. Não posso deixar essa foto (no caso, um documento histórico) determinar meu destino. Tenho de viver minha vida com o que acho certo em meu coração”.
Ao que Marty Mc Fly o lembra de ser ele um cientista:
“Doc, você é um cientista. O que é melhor, ouvir aqui (apontando no coração) ou aqui? (apontando no cérebro)”.

Doc, triste e desiludido porque terá de deixar seu grande amor no passado, diz: “Você está certo”. Logo depois, reconhece que é preciso voltar ao tempo “normal” e destruir a máquina do tempo (representa a ciência nesse embate com o irracional amor). “Viajar no tempo tornou-se muito doloroso”, argumenta Doc.

A história continua, McFly volta a 1985, e Doc – por problemas imprevistos – fica no passado. A máquina do tempo é destruída por um trem logo ao regressar a 1985. E, então, quando McFly acha que nunca mais verá seu tutor-cientista, ele surge em uma máquina do tempo-locomotiva a vapor, diretamente do passado, casado com seu grande amor e com dois filhos: Júlio e Verne, resultados da união ciência e do amor. Feliz em rever o amigo, McFly diz: “Doc, achei que nunca iria voltar”. Ao que Doc grita: “Nada segura um bom cientista”.

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