segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Entraves culturais afastam mulheres da Física

Por Clayton Levy e Luiza Bragion








Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Barbosa (foto) também é uma referência nacional em estudos sobre a participação feminina no meio científico. Conforme dados levantados pela pesquisadora, atualmente a graduação na universidade brasileira é composta por 56% de mulheres, mas na física elas são apenas 20%. No corpo docente universitário deste campo, há ainda uma redução drástica: apenas 16% dos professores são mulheres.

De acordo com o estudo de Márcia, realizado em 2005, o número de mulheres na ciência se reduz conforme a evolução da carreira: Um prova disso é que, na física, apenas 3% dos pesquisadores da categoria "1A" (que concentra maior titulação e a produção científica, dentre nove categorias do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento - CNPq) são mulheres. No entanto, em termos gerais, a média de produção de artigos acadêmicos das mulheres na física é o dobro dos homens. "Isso mostra que as mulheres têm que ser muito melhores que a média dos homens para se manter nas exatas", analisa.

Segundo ela, trata-se de um problema cultural que não se restringe ao Brasil. O fenômeno da diminuição das mulheres na carreira científica conforme a sua evolução é uma característica mundial e, na Europa, é conhecido como "tesoura". Alguns países já têm políticas públicas específicas para o caso: na Inglaterra, por exemplo, há um programa que incentiva as mulheres que abandonaram a sua carreira durante a gravidez a voltar a trabalhar. "Isso é especialmente importante em países que praticamente não têm assistência à mulher no período da maternidade, como creches". Outras iniciativas são mais pontuais, como por exemplo a simples construção de banheiros femininos em prédios de institutos de física. Em entrevista ao Blog, Márcia situa a condição feminina na área de física e mostra o caminho para superar os entraves cultuais.

Blog – Como está a participação das mulheres brasileiras em relação aos homens na Física?

Márcia – Comparando com outras áreas, a participação das mulheres na Física é bem mais baixa. Na graduação está em torno de 20%, mas à medida que vamos subindo ao longo da carreira esse número vai decrescendo, chegando a menos de 5% no topo da carreira. Há, portanto, dois problemas: começamos com um percentual baixo e ao longo da carreira esse percentual vai decaindo.

Blog – Em sua opinião, quais as razões que levam a esse cenário?

Márcia – Há duas razões importantes. Uma delas é a visão geral que a população tem sobre o cientista, particularmente de um físico. Pensa-se sempre num estereótipo, um profissional alienado, homem e nerd. Isso afasta definitivamente as meninas numa idade em que elas vão tomar decisões sobre a sua carreira profissional. Aos quinze ou dezesseis anos, elas ainda estão muito preocupadas com a aparência e com o grupo. Isso afasta as jovens da idéia de optar por essa carreira. Além disso, é uma carreira que os jovens do segundo grau não conhecem. Ninguém sabe ao certo como é interessante, excitante, como a gente descobre novas coisas fazendo ciência. As poucas meninas que saltam essa barreira, ao ingressarem na carreira, têm uma total falta de poder. Como há pouquíssimas mulheres no topo da carreira, elas não têm em quem se espelhar ou imaginar como seria o futuro delas. Elas vêem estereótipos, que em sua maioria são homens. Tanto isso é verdade, que um dos paises com maior percentual de mulheres na Física é a França, que ainda vive do velho modelo de Marie Curie (1867-1934) como cientista de destaque, que inspirou outras mulheres. Enquanto não conseguirmos ver mulheres brasileiras no topo da carreira, a gente não vai conseguir atrair um número maior de mulheres na base. Enquanto a gente não tiver mulheres na ciência, a ciência vai continuar sendo vista como um objeto masculino. Esse é o maior erro que pode haver numa sociedade, porque, na verdade, as mulheres são responsáveis pela maior parte do processo de educação de um país. Se elas tiverem preconceito contra a ciência elas irão repassar isso para os jovens. Esse é o grande perigo que vejo dentro da nossa cultura.

Blog – Em que medida esse preconceito impede que as mulheres cheguem ao topo da carreira?

Márcia – Se você tem uma maioria de homens no topo, eles vão fazer parte dos comitês e comissões. Normalmente, as pessoas avaliam outras pessoas como um espelho. Querem que os outros sejam iguais a ela. Se um pesquisador homem vai avaliar uma mulher ele não consegue avaliar com isenção. Isso é muito difícil, a menos que ele esteja consciente de que deve fazê-lo. Essa consciência a respeito da existência do preconceito não existia na sociedade brasileira. Há poucos anos a gente iniciou um movimento para chamar a atenção dos nossos colegas (homens) sobre o fato de que, muitas vezes, ao tomar uma decisão, eles estavam sendo preconceituosos. Vou dar um exemplo: numa certa época da minha carreira, quando solicitei promoção, um dos avaliadores justificou seu voto contrário afirmando o seguinte: não te promovi porque você ainda é uma menina muito novinha. Isso é preconceito. Em outras palavras, o que ele disse foi o seguinte: você não preenche o estereótipo da profissão, portanto não merece ser promovida. Também já ouvi relatos do tipo: não vamos promover essa profissional porque, para uma mulher, ela já está muito bem. Ou seja, há uma coisa subjacente na cabeça das pessoas de que, se o profissional é diferente deve ser deixando no canto dos diferentes. Mas, sempre que nós chamamos atenção para que os profissionais (homens) tivessem cuidado com o preconceito, as pessoas passaram ater mais cuidado para não reforçar esse preconceito.

Blog – Na sua avaliação, esse quadro está mudando?
Márcia – As coisas só mudam sob pressão. Quando começamos a levantar estatísticas e ressaltar a qualidade do trabalho de um grupo de mulheres que estavam sendo incorretamente avaliadas para menos, o sistema passou a tomar medidas para corrigir isso. Se eu ficar sentada na minha sala só escrevendo artigos e não abrir a minha boca para reclamar, nada muda. Acredito, porém, que está mudando. Já é possível perceber mudança nos dados, principalmente nas bolsas de produtividade de pesquisa. Esses números estão melhorando. Mas só estão melhorando por causa da pressão. Isso no topo da carreira. Melhorar na base será conseqüência das mudanças no topo. À medida em que houver um número maior de mulheres, e com maior visibilidade, em cargos importantes, as jovens vão perceber que para chegar lá não precisa ser nenhum nerd e que qualquer cidadão, homem ou mulher, pode aspirar a uma carreira científica.

Nenhum comentário: