
Por Felipe Rodrigues e Luiz Paulo Juttel
Uma curiosa contradição. A maior máquina científica já construída pelo ser humano se dedica a estudar as menores partículas da matéria. Inaugurado em setembro desse ano (atualmente inoperante devido a um vazamento na rede de ímãs), o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) busca confirmar ou refutar a existência de certas partículas elementares teorizadas há 44 anos.
Essas partículas formam o modelo padrão da física de partículas. Colidindo prótons a velocidades próximas as da luz, os cientistas esperam mostrar que a realidade imita a teoria, encontrando o que até agora só se vê nos textos técnicos.
Mas essa demonstração não é fácil de ser feita. A tecnologia necessária à colisão das partículas é bastante complexa. Feixes de prótons viajam dentro do anel de 27 Km de circunferência, conduzidos por ímãs resfriados por 9.798 toneladas de nitrogênio líquido e 54 toneladas de hélio líquido. Para captar os resíduos das colisões foram instalados 150 milhões de sensores. Só o ATLAS, uma das áreas do LHC, pesa 5.443 toneladas.
É evidente que um aparato tecnológico dessa magnitude produzirá dados em uma quantidade incognoscível ao ser humano. Por isso, uma rede com 60 mil computadores foi montada para filtrar as informações que sejam realmente relevante à pesquisa. Somente o que sobrar dessa caixa-preta é que chegará às mãos dos cientistas.
Essas partículas formam o modelo padrão da física de partículas. Colidindo prótons a velocidades próximas as da luz, os cientistas esperam mostrar que a realidade imita a teoria, encontrando o que até agora só se vê nos textos técnicos.
Mas essa demonstração não é fácil de ser feita. A tecnologia necessária à colisão das partículas é bastante complexa. Feixes de prótons viajam dentro do anel de 27 Km de circunferência, conduzidos por ímãs resfriados por 9.798 toneladas de nitrogênio líquido e 54 toneladas de hélio líquido. Para captar os resíduos das colisões foram instalados 150 milhões de sensores. Só o ATLAS, uma das áreas do LHC, pesa 5.443 toneladas.
É evidente que um aparato tecnológico dessa magnitude produzirá dados em uma quantidade incognoscível ao ser humano. Por isso, uma rede com 60 mil computadores foi montada para filtrar as informações que sejam realmente relevante à pesquisa. Somente o que sobrar dessa caixa-preta é que chegará às mãos dos cientistas.
Para o físico Marcelo Gleiser, mais interessante do que confirmar o que se espera e se tem predito em teoria, é o LHC manter vivo o ramo de física de partículas. "Devido aos custos elevados, está cada vez mais difícil obter a aceitação desses experimentos por parte da opinião pública", afirma Gleiser. Sabe-se que hoje em dia, por mais nobre que seja o objetivo de determinada área científica, dificilmente se obtém recursos e se alcança avanços sólidos se a opinião pública for contra ela. Por isso, os 9 bilhões de euros empregados na construção do LHC quase que obrigam os cientistas a encontrarem algo novo e "importante" na fronteira da França com a Suíça.
Grandiosidade estratégica
São diversos aspectos relacionados ao LHC a serem abordados, sempre acompanhados de adjetivos superlativos. “O maior acelerador de partículas do mundo entra em operação” ou “a um custo estimado em mais de 3 bilhões de euros, o mais caro projeto de pesquisa da história” são apenas dois exemplos do que está implícito ao se discutir o mais ambicioso programa científico da história.
Para o físico Sérgio Moraes, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o LHC representa a oportunidade de revolucionar o conhecimento na física. “É um processo muito importante, porque nos dará a possibilidade de usar elementos bem conhecidos da física e conseguir buscas inéditas, como o famoso bóson de Higgs (única partícula do modelo padrão da física que não foi observada e é imprescindível para explicar a origem de outras partículas)”.
A função do acelerador, porém, não se resume ao potencial científico revolucionário. Ao apontar que as pesquisas tiveram início há cerca de 20 anos, especialistas destacam que a articulação política do projeto foi o mais importante para concretização da idéia. Foram necessárias inúmeras agências de pesquisa para viabilização dos recursos, que só aconteceu por conta do atual contexto econômico (pouco antes da crise internacional do sistema financeiro) e da necessidade da Europa recuperar certa “referência” no universo científico.
Pode-se dizer que o LHC é fruto de uma conjunção de forças que não se resumem aos seus objetivos científico. A Europa propiciou este projeto em um momento em que temos a inovação tecnológica centrada cada vez mais na Ásia, além da química e medicina centradas nos Estados Unidos. Coube aos europeus se agruparem em torno da física.
Tem-se, então, a ciência européia (ainda que muitos pesquisadores do projeto não sejam da Europa, o projeto está sediado na fronteira entre França e Suíça) que ressurge no projeto mais caro e ambicioso da história. “Nada é por acaso”, diz a Física. O LHC também impulsionará a carreira dos coordenadores do projeto. “Implícito nisto tudo está um jogo político que a ciência sempre padecerá. Por mais desenvolvido que as coisas estejam. "Pelo menos por enquanto”.
Muito mais que um acelerador
O nome Large Hadron Collider (LHC, em português, o Grande Colisor de Hádrons) já impressiona. Claro, grandiosidade é a palavra-chave deste projeto de pesquisa básica europeu. O programa reúne mais de dois mil cientistas, todos em busca de entender as entranhas do universo da matéria e, quem sabe, buscar respostas sobre a origem da massa.
Tamanha comoção contribui para o projeto ganhar certa “aura”. Alguns o chamam de “máquina do fim do mundo”, por temer que o LHC ocasione buracos negros e, com isso, o planeta seja destruído. Apocalíptico? Para o físico André Natal, este tipo de polêmica só deixa o assunto em maior evidência. “Contribui por atrair holofotes”.
A exposição midiática, no entendimento do especialista, termina por conferir ao projeto um sentido extracientífico, relacionado ao seu impacto simbólico na vida das pessoas. “Os esforços políticos que foram feitos para implementação do LHC levaram em conta todo esse simbolismo”, avalia. “A divulgação do projeto é toda trabalhada em cima desta grandiosidade”, completa.
Por trás de toda estrutura do LHC (pode-se citar, por exemplo, números como o comprimento de 27 quilômetros do túnel circular do projeto ou os 1232 ímãs bipolares supercondutores de 35 toneladas que o compõem), surge algo maior do que a própria pesquisa. É a capacidade do homem em sempre surpreender. Brincar de ser Deus. “Não tenho dúvidas de que todos os pesquisadores envolvidos no assunto o fizeram por conta da imponência do LHC”, argumenta. “A gente fica sabendo de certas coisas relacionadas ao assunto que eu nem poderia falar. Mas muitos pesquisadores fizeram de tudo (ênfase no tudo) para estar participando desta empreitada”.
ORIGEM. Para o sociólogo da Ciência Caio Abreu, há algo ainda mais emblemático na busca pela origem da matéria. A necessidade do ser humano sempre buscar pelo chamado “ponto zero”. “Por isso Darwin é tão importante. Porque ele nos deu uma reposta satisfatória (ainda que debatida até hoje) sobre a origem do homem na área biológica”, explica. “Todas as pesquisas de destaque tentam este retorno, como se fosse algo mal-resolvido do homem com a sua natureza. Talvez seja uma tentativa de substituir Deus”. Ou assumir o seu lugar.
A exposição midiática, no entendimento do especialista, termina por conferir ao projeto um sentido extracientífico, relacionado ao seu impacto simbólico na vida das pessoas. “Os esforços políticos que foram feitos para implementação do LHC levaram em conta todo esse simbolismo”, avalia. “A divulgação do projeto é toda trabalhada em cima desta grandiosidade”, completa.
Por trás de toda estrutura do LHC (pode-se citar, por exemplo, números como o comprimento de 27 quilômetros do túnel circular do projeto ou os 1232 ímãs bipolares supercondutores de 35 toneladas que o compõem), surge algo maior do que a própria pesquisa. É a capacidade do homem em sempre surpreender. Brincar de ser Deus. “Não tenho dúvidas de que todos os pesquisadores envolvidos no assunto o fizeram por conta da imponência do LHC”, argumenta. “A gente fica sabendo de certas coisas relacionadas ao assunto que eu nem poderia falar. Mas muitos pesquisadores fizeram de tudo (ênfase no tudo) para estar participando desta empreitada”.
ORIGEM. Para o sociólogo da Ciência Caio Abreu, há algo ainda mais emblemático na busca pela origem da matéria. A necessidade do ser humano sempre buscar pelo chamado “ponto zero”. “Por isso Darwin é tão importante. Porque ele nos deu uma reposta satisfatória (ainda que debatida até hoje) sobre a origem do homem na área biológica”, explica. “Todas as pesquisas de destaque tentam este retorno, como se fosse algo mal-resolvido do homem com a sua natureza. Talvez seja uma tentativa de substituir Deus”. Ou assumir o seu lugar.
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