Até onde uma ciência pode ser exata? Será que alguma delas o é? Se for tal ciência exata, então não há espaço para a dúvida. Só a verdade lhe é útil. Como nada além do real e verdadeiro tem serventia, tudo o que fizer parte dessa ciência tem que ser imutável. Pode alguma ciência ser incorruptível?
O (Re) Eureka é um blog que fala sobre física, uma das mais exatas ciências exatas. Através de suas elegantes e precisas equações matemáticas, o conhecimento físico almeja desvelar os processos do mundo... físico. Como notoriamente dizia Galileu Galilei, os cientistas dessa área extraem as informações que desejam diretamente do grande livro da natureza.
Mas, uma pergunta que precisa ser feita é se aspectos que alguns chamariam de não científicos entram em cena nesse tão (aparentemente) hermético campo de pesquisas. É possível a aceitação de determinada teoria variar de acordo com o círculo de relacionamentos do seu propositor? Como se dão as relações de trabalho entre os físicos? Homens e mulheres atuam sob as mesmas condições, ou suas pesquisas são analisadas sob pesos diferentes? E a divulgação de temas complexos como os tratados pela física como se dá?
(Re) Eureka é um espaço que trata sobre um pouco disso tudo. Nesse primeiro conjunto de posts é mostrado, por exemplo, o que está em jogo (além da ciência) no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), o maior equipamento científico já construído pelo homem.
Traz-se também uma entrevista com Márcia Barbosa, Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que mostra que mulheres físicas precisam publicar o dobro de papers para obterem reconhecimento profissional semelhante ao dos homens que atuam nessa área. Muitos institutos de física nem sequer banheiro feminino possuem.
Um dos posts analisa a forma como o cinema retrata a física em três filmes renomados: O Núcleo, O Contato e a trilogia De Volta para o Futuro. De brinde é há um excelente roteiro da exposição Einstein que ocorre no Parque do Ibirapuera em São Paulo.
A idéia principal é mostrar a física através de novos e diferentes ângulos.
Uma curiosa contradição. A maior máquina científica já construída pelo ser humano se dedica a estudar as menores partículas da matéria. Inaugurado em setembro desse ano (atualmente inoperante devido a um vazamento na rede de ímãs), o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) busca confirmar ou refutar a existência de certas partículas elementares teorizadas há 44 anos.
Essas partículas formam o modelo padrão da física de partículas. Colidindo prótons a velocidades próximas as da luz, os cientistas esperam mostrar que a realidade imita a teoria, encontrando o que até agora só se vê nos textos técnicos.
Mas essa demonstração não é fácil de ser feita. A tecnologia necessária à colisão das partículas é bastante complexa. Feixes de prótons viajam dentro do anel de 27 Km de circunferência, conduzidos por ímãs resfriados por 9.798 toneladas de nitrogênio líquido e 54 toneladas de hélio líquido. Para captar os resíduos das colisões foram instalados 150 milhões de sensores. Só o ATLAS, uma das áreas do LHC, pesa 5.443 toneladas.
É evidente que um aparato tecnológico dessa magnitude produzirá dados em uma quantidade incognoscível ao ser humano. Por isso, uma rede com 60 mil computadores foi montada para filtrar as informações que sejam realmente relevante à pesquisa. Somente o que sobrar dessa caixa-preta é que chegará às mãos dos cientistas.
Para o físico Marcelo Gleiser, mais interessante do que confirmar o que se espera e se tem predito em teoria, é o LHC manter vivo o ramo de física de partículas. "Devido aos custos elevados, está cada vez mais difícil obter a aceitação desses experimentos por parte da opinião pública", afirma Gleiser. Sabe-se que hoje em dia, por mais nobre que seja o objetivo de determinada área científica, dificilmente se obtém recursos e se alcança avanços sólidos se a opinião pública for contra ela. Por isso, os 9 bilhões de euros empregados na construção do LHC quase que obrigam os cientistas a encontrarem algo novo e "importante" na fronteira da França com a Suíça.
Grandiosidade estratégica
São diversos aspectos relacionados ao LHC a serem abordados, sempre acompanhados de adjetivos superlativos. “O maior acelerador de partículas do mundo entra em operação” ou “a um custo estimado em mais de 3 bilhões de euros, o mais caro projeto de pesquisa da história” são apenas dois exemplos do que está implícito ao se discutir o mais ambicioso programa científico da história.
Para o físico Sérgio Moraes, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o LHC representa a oportunidade de revolucionar o conhecimento na física. “É um processo muito importante, porque nos dará a possibilidade de usar elementos bem conhecidos da física e conseguir buscas inéditas, como o famoso bóson de Higgs (única partícula do modelo padrão da física que não foi observada e é imprescindível para explicar a origem de outras partículas)”.
A função do acelerador, porém, não se resume ao potencial científico revolucionário. Ao apontar que as pesquisas tiveram início há cerca de 20 anos, especialistas destacam que a articulação política do projeto foi o mais importante para concretização da idéia. Foram necessárias inúmeras agências de pesquisa para viabilização dos recursos, que só aconteceu por conta do atual contexto econômico (pouco antes da crise internacional do sistema financeiro) e da necessidade da Europa recuperar certa “referência” no universo científico.
Pode-se dizer que o LHC é fruto de uma conjunção de forças que não se resumem aos seus objetivos científico. A Europa propiciou este projeto em um momento em que temos a inovação tecnológica centrada cada vez mais na Ásia, além da química e medicina centradas nos Estados Unidos. Coube aos europeus se agruparem em torno da física.
Tem-se, então, a ciência européia (ainda que muitos pesquisadores do projeto não sejam da Europa, o projeto está sediado na fronteira entre França e Suíça) que ressurge no projeto mais caro e ambicioso da história. “Nada é por acaso”, diz a Física. O LHC também impulsionará a carreira dos coordenadores do projeto. “Implícito nisto tudo está um jogo político que a ciência sempre padecerá. Por mais desenvolvido que as coisas estejam. "Pelo menos por enquanto”.
Muito mais que um acelerador
O nome Large Hadron Collider (LHC, em português, o Grande Colisor de Hádrons) já impressiona. Claro, grandiosidade é a palavra-chave deste projeto de pesquisa básica europeu. O programa reúne mais de dois mil cientistas, todos em busca de entender as entranhas do universo da matéria e, quem sabe, buscar respostas sobre a origem da massa.
Tamanha comoção contribui para o projeto ganhar certa “aura”. Alguns o chamam de “máquina do fim do mundo”, por temer que o LHC ocasione buracos negros e, com isso, o planeta seja destruído. Apocalíptico? Para o físico André Natal, este tipo de polêmica só deixa o assunto em maior evidência. “Contribui por atrair holofotes”.
A exposição midiática, no entendimento do especialista, termina por conferir ao projeto um sentido extracientífico, relacionado ao seu impacto simbólico na vida das pessoas. “Os esforços políticos que foram feitos para implementação do LHC levaram em conta todo esse simbolismo”, avalia. “A divulgação do projeto é toda trabalhada em cima desta grandiosidade”, completa.
Por trás de toda estrutura do LHC (pode-se citar, por exemplo, números como o comprimento de 27 quilômetros do túnel circular do projeto ou os 1232 ímãs bipolares supercondutores de 35 toneladas que o compõem), surge algo maior do que a própria pesquisa. É a capacidade do homem em sempre surpreender. Brincar de ser Deus. “Não tenho dúvidas de que todos os pesquisadores envolvidos no assunto o fizeram por conta da imponência do LHC”, argumenta. “A gente fica sabendo de certas coisas relacionadas ao assunto que eu nem poderia falar. Mas muitos pesquisadores fizeram de tudo (ênfase no tudo) para estar participando desta empreitada”.
ORIGEM. Para o sociólogo da Ciência Caio Abreu, há algo ainda mais emblemático na busca pela origem da matéria. A necessidade do ser humano sempre buscar pelo chamado “ponto zero”. “Por isso Darwin é tão importante. Porque ele nos deu uma reposta satisfatória (ainda que debatida até hoje) sobre a origem do homem na área biológica”, explica. “Todas as pesquisas de destaque tentam este retorno, como se fosse algo mal-resolvido do homem com a sua natureza. Talvez seja uma tentativa de substituir Deus”. Ou assumir o seu lugar.
Para baixo e avante! A superciência em O Núcleo – Missão ao centro da terra
Por Patrícia Mariuzzo
A primeira aparição do Super-Homem fora dos quadrinhos aconteceu no rádio. Era 1940 quando a rádio norte-americana Mutual lançou um programa de 15 minutos no qual o personagem falava “Para o alto e avante!” para demonstrar que estava voando. Alguns anos mais tarde, os desenhos animados e a primeira adaptação para a TV mantiveram a frase. Em Superman, clássico do cinema, de 1978, estrelado por Christopher Reeve (1), o herói de capa vermelha não avisa quando vai voar, entretanto, é o seu vôo que muda os rumos da história. O ponto alto do filme acontece quando o super-herói recebe a notícia da morte de sua amada Lois Lane em um terremoto provocado pelo vilão Lex Luthor. Desesperado, o super-herói gira várias vezes em torno da Terra na direção inversa à sua rotação, cada vez mais rapidamente, até fazer com que o planeta passe a girar em sentido contrário. Com isso ele consegue fazer com que o tempo recue, trazendo Lois de volta à vida.
Em O Núcleo, Missão ao Centro da Terra, produção norte-americana de 2003, dirigida por Jon Amiel e estrelada por Aaron Eckhart e Hilary Swank, não é um super-herói que muda a rotação do planeta, na verdade heróis e vilões não são tão facilmente identificados. Não se trata apenas de um personagem desonesto ou ambicioso ou de um herói com capa esvoaçante, forte e de caráter insuspeito. Em O Núcleo, herói e vilão tem o mesmo nome: ciência ou, melhor dizendo, uma super-ciência. Conforme explica Monteiro (in Oliveira, 2005), a ciência no cinema cria, ao mesmo tempo em que destrói, ela é a solução, mas também problema.
A ficção científica, mesmo sendo considerada um gênero fantasioso, caminha lado a lado com a sociedade. Questiona seus valores, antecipa suas mudanças e faz questão de nos lembrar, ao cutucar-nos o tempo todo, como a tecnologia pode ser, ao mesmo tempo, algo benéfico, mas também muito perigosa para o homem”.(Monteiro, p. 172, in Oliveira, 2005)
O cinema é um meio (e dos mais potentes) de circulação de conhecimentos e valores culturais. Em suas diversas formas narrativas (documentários, ficção científica etc.) pode revelar a penetração da ciência em nossa sociedade. É por este motivo que eles são considerados pelos estudos culturais da ciência (2) como um ótimo material para análise da cultura e da história da ciência. (Oliveira, 2005). E não se trata apenas da visão que produtores e diretores têm em relação à ciência, mas da visão que eles imaginam que o público tem. Nesta produção cinematográfica é possível perceber uma ciência investida de grande poder. Um poder que cria grandes problemas a ponto de colocar em risco a existência do planeta e, ao mesmo tempo, o poder de resolver tudo e salvar a todos.
O longa-metragem começa com cenas na cidade de Boston onde pessoas começam a morrer inesperadamente, sem explicação. Mais tarde o expectador descobre que todas usavam marca-passo e que o mau funcionamento do aparelho devido a interferências eletromagnéticas causou as mortes. Mais tarde, em Londres, pombos aparentemente perdem a noção de navegação e se atiram contra os prédios, vidraças, carros, causando inúmeros acidentes. Apostando nos efeitos especiais, uma tempestade elétrica destrói nada menos do que o Coliseu, em Roma. Na cidade de São Francisco, a estrutura de ferro da Ponte Golden Gate, começa a derreter para, em seguida, mergulhar no oceano. Todos estes fenômenos estão acontecendo porque o núcleo do planeta Terra parou de girar, afetando o campo eletromagnético do planeta e, por conseqüência, a ordem natural de vários fenômenos como a orientação de vôo dos pássaros, a proteção do planeta contra a radiação solar e o funcionamento de todos os aparelhos eletrônicos, incluindo um ônibus espacial da Nasa que tem sua rota de pouso modificada e é forçado a descer no leito de um rio, em plena Los Angeles.
A super ciência que salva A solução: um grupo de cientistas recrutados pelas Forças Armadas norte-americanas no melhor estilo Projeto Manhattan (3) fazem uma viagem ao centro da terra, ao núcleo, levando uma poderosa bomba atômica (na verdade são várias ogivas nucleares), cuja explosão, eles acreditam, será capaz de reativar o movimento do núcleo e salvar o planeta. O grupo é composto por três cientistas norte-americanos, um deles negro, um cientista francês (especialista em armas atômicas) e dois pilotos da Nasa, sendo um deles uma mulher.
Para concretizar sua missao salvadora da ciência o cinema transforma cientistas em heróis. É o que acontece com Josh Keyes, geofísico e professor universitário que sai da sala de aula com alunos entediados diretamente para a missão de salvar o planeta como “terranauta” do Virgílio (4), uma espécie de nave feita de um novo material resistente a altas temperaturas, capaz de chegar ao núcleo do planeta.
Beck: Você é mesmo professor de faculdade? Não é da CIA ou de um desses lugares de três letras. Josh: Não, eu sou um professor chato de faculdade. Você se enganou. Beck: Aquilo foi o maior ato de coragem que eu já vi.
Ocorre um processo de heroificação e criação de ícones na figura destes cientistas. Na análise do filme Os Eleitos (in Oliveira, 2005), Andrade, Magalhães e Nogueira explicam como o cinema se apropria da figura do herói. Segundo eles, no auge do projeto espacial norte-americano, durante a chamada Guerra Fria, a Nasa transforma astronautas em heróis nacionais, processo retratado no filme Os Eleitos. E a arte imita a vida, ou seria o contrário? O cinema usa a realidade como matéria prima e a ciência precisa de imaginação para avançar.
O físico Marcelo Gleiser escreveu em sua coluna semanal no jornal Folha de São Paulo, em um artigo em que discutia a relação entre a ciência e Hollywood, que existe uma relação dual entre o imaginário e o real, que é inspiradora não só para os que vão ao cinema, mas para os que fazem ciência e vão ao cinema. (Monteiro, p. 162, in Oliveira, 2005).
O herói é a personificação do ideal do american way of life: jovem, corajoso, casado, crente em Deus e defensor da família e da pátria. Neste filme o herói Josh Keyes é solteiro, provavelmente para explorar a tensão sexual entre ele e Beck (Hilary Swank). A valorização da família é passada para o especialista em armas atômicas Sergie Laveque, que em uma das seqüências do filme deixa clara sua intenção de se sacrificar por sua família, o que de fato ocorre. O herói enfrenta todo tipo de desafio com engenhosidade de um líder e com a alma de um aventureiro, representações típicas de uma grande confiança na ciência. Sempre disposto a dar a vida, seja pelo companheiro, como na seqüência em que Josh abre mão do seu oxigênio para que o Dr. Edward conserte a nave, seja quando ele encabeça a resistência do grupo em utilizar um dispositivo construído secretamente pelo governo americano para provocar abalos sísmicos. Na verdade, o núcleo da Terra parou de girar exatamente por causa dos experimentos com este dispositivo.
O planeta Terra é dominado por um enorme campo magnético que a transforma em um imã gigante. A bússola encontra as direções na superfície por causa deste magnetismo. A agulha que sempre aponta na mesma direção está magnetizada. Ela tende a se alinhar com o campo magnético terrestre. Pesquisas geológicas afirmam que a parte central do planeta seja constituída por ferro fundido. Correntes elétricas dentro deste núcleo seriam responsáveis pela existência do campo magnético.
Em O Núcleo o discurso técnico da ciência é investido de um apelo emocional. As soluções para os inúmeros problemas que vão surgindo ao longo da viagem são todas baseadas em princípios científicos, com direito a analogias e todas as liberdades que o cinema toma em favor de uma narrativa emocionante e atraente para o expectador. O cinema e a ciência não são mundos incompatíveis, mas neste filme o rigor científico não caminha necessariamente com o entretenimento. Um hacker que controla sozinho todo o fluxo de informações da internet para evitar vazamento de informações sobre o projeto que é mantido em segredo é um dos (muitos) exemplos disso.
Super-ciência: o vilão é perdoado De acordo com Wortnann (2008) as produções midiáticas culturais constituem-se como instâncias que conformam e produzem representações do mundo e também de ciência, ou seja, elas tendem a dizer o que a ciência é. E, se em O Núcleo a ciência é redentora, ela também é perigosa. A força desconhecida que fez a rotação do núcleo parar é, na verdade, uma conspiração governamental num projeto secreto militar chamado Destiny que pretendia usar arma que provocaria terremotos para atacar o inimigo. Mas os danos que o projeto traz revelam-se imprevisíveis: tempestades elétricas, interferências nos aparelhos eletrônicos, radiação solar, são alguns que o filme mostra. O resultado do avanço científico que criou uma arma tão poderosa é a destruição do planeta.
O personagem Conrad Zinmsky, interpretado pelo ator Stanley Tucci, é a personificação da ciência a serviço das (más) intenções armamentistas do governo. Arrogante e cínico, ele é acusado inclusive de roubar a pesquisa de outro cientista, Edward Brazleton (Delroy Lindo), inventor da nave Virgílio que se junta a eles na missão ao centro da terra. Brazleton expressa um estereótipo muito comum no cinema de ficção científica, o do cientista solitário e brilhante, que leva uma vida reclusa, isolado da sociedade em seu laboratório e que dedica a vida a pesquisas secretas, perigosas e inacessíveis ao entendimento da maioria das pessoas, mas que se mostram úteis no momento certo. Isto é exatamente o que aconteceu com Virgílio. Bastaram três meses e US$ 50 milhões (em cheque) para transformá-lo em realidade. O cientista solitário e recluso nos remete a mitos mais antigos da literatura como Victor Frankenstein, de Mary Shelley (1818) ou o Dr. Mareau, de H.G. Wells (1896), ambos já adaptados para o cinema mais de uma vez.
Mas se a ciência de cunho fortemente bélico é responsável pela catástrofe que dá mote ao filme, ela é absolvida quando o movimento do núcleo é reativado utilizando ogivas nucleares. Assim, o que fora idealizado para destruir, salva. O diretor recupera inclusive o clichê “apertar um botão” com closes no botão (sempre) vermelho que acionaria o tal dispositivo que detona terremotos e também nas mãos da Major Rebecca sentada entre dezenas de botões, por meio dos quais alguns membros da expedição perecem e as bombas nucleares são lançadas no núcleo, que lembra um grande sol amarelo-avermelhado. A cena que talvez sintetize esta redenção da ciência é aquela na qual Zinmsky se sacrifica pela missão e morre, condescendente, dentro de um dos compartimentos da nave junto em companhia de uma das bombas. Antes ele insistira para que o grupo abortasse a missão para que ele se salvasse. “Eu não sei vocês, mas eu tenho muito a perder”, diz ele.
As transposições e as vivências que a linguagem cinematográfica possibilitam são tão marcantes, que muitas vezes elas se tornam as referências profundas e comuns pelas quais a ciência e a tecnologia são percebidas por grande parte da sociedade. (Oliveira, 2001, p. 08)
No filme O Núcleo, lançado em 2003, a ciência tem papel central. É uma ciência superlativa, poderosa, como os super-heróis dos quadrinhos tão caros ao cinema. Assim como o Superman, ela também pode fazer o planeta parar e fazer o planeta girar de novo.
O Núcleo – Missão ao centro da Terra Ficha Técnica Título Original: The Core Direção: Jon AmielGênero: Ficção Científica Tempo de Duração: 135 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2003
Elenco Aaron Eckhart (Josh Keyes) Hilary Swank (Major Rebecca "Beck" Childs) Delroy Lindo (Dr. Edward Brazleton) Stanley Tucci (Dr. Conrad Zimsky) DJ Qualls (Rat) Tchéky Karyo (Sergei Laveque) Bruce Greenwood (Coronel Robert Iverson) Alfre Woodard (Stick) Nicole Leroux (Mãe) Gregory Bennett (Terry) Dion Johnstone (Tenente Timmons) Christopher Shyer (David Perry) Richard Jenkins
Notas
1 Superman, direção Richard Donner, 1978. Além de Christopher Reeve, o elenco tinha Marlon Brando como Jor-El e Gene Hackman, no papel do vilão Lex Luthor.
2 Segundo Veiga-Neto e Wortmann (2001), na perspectiva dos estudos culturais não se estabelece qualquer distinção entre “conhecimento científico” e “senso comum”, entre “alta cultura” e “baixa cultura”, entre cultura erudita e popular. Daí a possibilidade de ter na produção cinematográfica também uma produção cultural legítima e plena de significados.
3 Durante a Segunda Guerra Mundial este projeto norte-americano recrutou dezenas de cientistas para desenvolver e construir a primeira bomba atômica. As bombas jogadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki foram criadas dentro Projeto Manhattan. Sobre o recrutamento de cientistas pelo Estado no cinema ver também a análise do filme Uma mente brilhante, de Ubiratan D’Ambrosio, em Oliveira, 2005.
4 No clássico A Divina Comédia, é o poeta da antiguidade Virgílio que conduz Dante em uma viagem ao centro da terra. Iniciada nos portais no inferno, a viagem pelo mundo subterrâneo os levaria aos pés do monte purgatório e depois até as portas do céu.
Bibliografia Oliveira, Bernardo Jefferson (org). História da ciência no cinema. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2005.
Veiga-Neto, Alfredo; Wortmann, Maria Lucia. Estudos Culturais da ciência e educação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2001.
Wortmann, Maria Lucia. “A visão dos estudos culturais da ciência”. ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Ciêntífico, n° 100, julho 2008.
Escosteguy, Ana Carolina. “Uma introdução aos estudos culturais”. Revista Famecos, Porto Alegre, n° 9, dezembro 1998.
Estrelado por Jodie Foster no papel de Dra. Eleanor Ann Arroway, O Contato relata a trajetória de uma jovem cientista em busca de um sonho acalentado desde a infância: saber se existe ou não vida em outros planetas e se é possível estabelecer contato com eles. Após muitas dificuldades e por conta de seu idealismo e persistência, Eleanor consegue receber um sinal transmitido a partir da estrela Vega, distante 26 anos-luz da Terra. A mensagem é uma cadência de impulsos sonoros representando números primos, o que evidencia não o acaso e, sim, um código pensado por algum tipo de inteligência. Por trás desses sons existem as imagens da primeira grande transmissão de TV, a dos jogos olímpicos de Berlim em 1936 na qual aparece Hitler em um discurso. A mensagem também continha instruções para a construção de uma máquina de transporte espacial. Alguns anos mais tarde, a máquina é construída e a Dra. Arroway não ganha a concorrência para viajar até Vega. O escolhido é David Drumlin (Tom Skerrit), o dirigente do conselho nacional de pesquisa, que nunca apoiou o trabalho de Arroway.
Embora estejam presentes no filme vários conceitos de física e até Einstein tenha sido evocado para explicar alguns, existem temas que são pertinentes a ciência de um modo amplo, seja qual for o domínio de estudo. Entre eles a divulgação científica, a política e o amparo à pesquisa, a relação entre ciência e religião e também a questão de gênero, no caso, a mulher-cientista.
Ao divulgar os resultados para o mundo todo, os cientistas da equipe da Dra. Arroway começam a perceber os efeitos devastadores na sociedade. O que era de suma importância científica ganha a conotação de espetáculo massivo. O impacto da divulgação causa um choque social, um desfile de diversidades culturais. Desde fundamentalistas religiosos que anunciam algo apocalíptico até músicas e danças com o tema Vega. O exército e a defesa nacional são acionados. A pesquisa começa a ser valorizada e outros tentam tomá-la como propriedade, deixando a real autora em segundo plano, já que visibilidade e poder estão em jogo.
Antes de receber a mensagem de Vega, Dra. Arroway teve os recursos governamentais cancelados, justamente por produzir um tipo de ciência que gerava descrédito e desinteresse para a maioria e, principalmente, para o dirigente do conselho nacional de pesquisa que traçava planos de não mais apoiar as pesquisas básicas e sim focar recursos nas aplicadas. A cientista parte, então, em busca de financiamento privado e com êxito continua seu projeto. Depois da mensagem e da repercussão, o cenário de importância da pesquisa tem uma nova composição. O laboratório, no México, locado com verbas privadas, agora, é requerido pelo governo americano que assume a frente do projeto e David Drumlin, o cientista-executivo, que nunca acreditara no pioneirismo da pesquisa se envolve profundamente, mas apenas por status, chegando a ser apresentado como “o responsável pela equipe que fez a descoberta”. O filme traz uma forte crítica à questão política e os recursos que envolvem os estudos científicos. Quem decide onde investir? Quais pesquisas “merecem” receber ou não o financiamento? São questões não só hollywoodianas, mas que fazem parte da realidade científica em áreas marginalizadas por não ser a notícia do momento.
O “namoro” entre ciência e religião não é algo novo e sim uma discussão recorrente. No filme esse relacionamento é materializado no affair entre Eleanor (ciência) e Palmer Joss (religião), um escritor religioso autor de best-sellers e assessor para assuntos religiosos da casa branca. Ciência e religião sempre tiveram pontos de convergência e divergência, como num romance, onde os corpos se fundem em um, mas também há rompimentos que provocam grandes distâncias. Palmer se sente atraído por Eleanor desde o início e ela se esquiva. Acontece um primeiro envolvimento quando sai da boca de Palmer palavras que se filiam à rede de sentidos de Eleanor: “Se estamos realmente sós, seria um grande desperdício”, palavras também ditas pelo pai da cientista, se referindo à possível existência de civilizações em outros planetas. É interessante notar que o presente dado por Palmer a Eleanor é uma bússola. Esse símbolo do relacionamento dos dois, hora está com um, hora com outro no percurso da história. Assim, a pergunta implícita parece ser: quem dá o “norte” a quem? A ciência guia a religião ou vice-versa? Os dois pólos são amplamente explorados pela narrativa já que Eleanor perde a primazia da viagem a Vega, justamente por não acreditar em Deus e assim não ser uma fiel representante americana, uma população que se intitula religiosa. David é o tripulante escolhido, por falsamente se declarar como religioso.
A primeira viagem tem seus planos frustrados por um atentando terrorista de um fanático religioso que leva à morte parte da equipe do projeto, além de David Drumlin que é enterrado com pompas de mártir-herói. Só então é que Arroway descobre que uma segunda máquina foi construída no Japão e parte para sua viagem a Vega.
Na viagem em que fez por entre os “buracos de minhocas”, que conforme disse o alienígena para Arroway, no encontro que tiveram em Vega, não foram construídos por eles, simplesmente os encontraram, Arroway, se maravilha com tanta beleza e fica sem palavras, dizendo apenas que deviam ter enviado um poeta para o espaço, assim os relatos seriam mais fiéis.
Na dualidade entre ciência e religião, Arroway, descobre que quando não há provas existe a fé. A câmera acoplada em sua cabeça não gravou nenhuma imagem, apenas interferências. O tempo em que ficou na máquina depois de ser lançada foi uma fração de segundos aqui na Terra, mas para ela mais ou menos 18 horas. A cientista tentou mostrar teorias para essa diferença entre o tempo terrestre e de Vega, mas sem provas concretas caiu no descrédito. Embora, em uma cena entre a assessora do presidente americano e o secretário de segurança nacional fique claro que a viagem realmente aconteceu, já que a câmera de Arroway gravou 18 horas de interferência e não apenas frações de segundos. Mas essa informação ficou restrita apenas aos arquivos secretos do caso.
O “alienígena” e o “outro planeta” foram mostrados em O Contato de forma muito sutil e poética, já que o ser que encontra Eleanor em Vega tem a imagem do seu pai e o ambiente do planeta é um desenho de infância da cientista. Tudo isso, segundo o alienígena, foi escolhido para criar uma atmosfera familiar e diminuir os impactos do encontro. Diferente de outras produções o filme não se baseia em megaefeitos especiais e a criação de monstros “preocupados” em invadir e destruir a Terra e, sim, em debater aspectos pertinentes ao mundo científico. A narrativa fomenta a tênue possibilidade de vida inteligente em outros planetas. O Contato traz a tênue possibilidade de vida inteligente em Hollywood.
Máquina do tempo. Quem, um dia, não quis poder usar uma para aproveitar melhor algum momento especial ou desfazer um ato praticado? Nos filmes 'De volta para o futuro 1, 2 e 3', Christopher Lloyd e Michael J. Fox têm uma máquina do tempo à disposição para ir e vir ao longo dos anos e da história.
Filmada em 1985, a primeira versão da trilogia conta a história do estudante de colégio Marty McFly e do cientista Doc Brown, uma espécie de superamigo mais velho de Mc Fly. E começa com a tentativa deles de usar a máquina do tempo - construída em um carro DeLorean - no estacionamento de um supermercado.
Por ter roubado plutônio de terroristas líbios, para realizar o experimento, o cientista é morto ali no estacionamento e McFly, acidentalmente, acaba indo parar em 1955, quando usava o carro para fugir dos terroristas e não ser morto também.
Já em 1955, McFly se vê em apuros. Ele fica sem combustível adequado - plutônio -'energia' não disponível tão facilmente em 1955 – para voltar para 1985. Para resolver o problema, ele procura ajuda de seu (futuro) amigo Doc Brow.
Durante sua passagem pelo passado, Mc Fly acaba acidentalmente influenciando na história de seus pais, colocando em risco sua própria existência no futuro, uma vez que sua mãe se apaixona por ele e, sem o encontro de seu pai e sua mãe no passado, ele começa a desaparecer, pois nem irá nascer no futuro.
Por conta desse problema, McFly precisa reorganizar a história para que o futuro seja como ele presenciou antes de ir para o passado.
Essa discussão sobre influenciar ou não o passado para rearranjar o futuro é tema de toda a trilogia. O cientista Doc Brown inúmeras vezes briga com seu pupilo adolescente para que ele não tome atitudes no passado de forma que mude a história futura. “Saber sobre o futuro pode ser perigoso”, diz Doc a Marty, ainda na primeira parte da trilogia, quando este tenta dar informações sobre o futuro e evitar que ele, Doc, fosse assassinado pelos terroristas.
Mas o que se vê no filme é uma visão enviesada. Na trama, a "história correta" é sempre aquela observada pelo cientista e por seu pupilo. O conselho de não influenciar na história é sempre quebrado quando as coisas lhes convêem e se o resultado (no futuro) fica melhor para um ou outro.
Com os problemas causados pelo acaso, McFly se esforça para conseguir que seu pai e sua mãe se encontrem no baile e, com isso, o nascimento dele (McFly) esteja garantido no futuro. Mas o jovem não se preocupa muito em alterar o rumo da história de forma que seu pai vire um cara bem sucedido e não um "bananão" como realmente era. O cientista Doc Brown também, apesar de todas as suas teorias sobre a mudança do passado resultando no futuro, descumpre as regras para se dar bem. Prova disso é que Doc lê a carta deixada por McFly antes de voltar para o futuro e, assim, no dia do ataque terrorista, se protege com colete a prova de balas. Já no futuro, por conta das mudanças planejadas de McFly, a família dele se transforma: passa de explorado a explorador, deixando o inimigo de juventude Biff (que antes da mudança era o explorador), como o explorado.
O filme De volta para o futuro 2 é a continuidade cronológica do primeiro. Nele, essa questão ética enviesada de mexer no passado e no futuro para obter vantagens continua em discussão. Nesta segunda parte da trilogia, o cientista Doc vai para 2015, vê problemas no futuro dos filhos de McFly e volta para 1985 para contar sobre os problemas que viu e pedir ajuda na resolução deles. E, deixando de lado os conselhos que deu no primeiro filme, Doc ajuda McFly a alterar o passado para solucionar o futuro, mas prejudica o "andamento normal" da história de forma que prejudica a vida de outro: o neto de Biff.
Ainda em 2015, McFly vê a oportunidade de obter informações privilegiadas sobre esporte e ganhar dinheiro no passado. Doc, então vocifera: "não inventei a máquina do tempo para lucrar. O objetivo é entender melhor a humanidade. Onde estivemos, aonde vamos, os problemas e as possibilidade, os perigos e a promessa e, talvez, até a resposta para a pergunta universal: por quê?". Ali, ele – como cientista - repreende McFly sobre o uso da ciência para ganhar dinheiro, mas não reconhece que somente o fato de sair do passado (1985) para alterar o futuro problemático familiar de McFly (em 2015) já representa o uso da ciência para um ganho particular e desrespeitoso à história "natural".
Esse problema “de viés” sobre a história fica mais evidente nesta segunda parte, quando Biff (já velho em 2015) os segue e, aproveitando um descuido, rouba a máquina do tempo, volta ao passado (para 1955) e replaneja a vida de sua família de forma que ele vira milionário.
Ao voltar a 1985, Doc e McFly percebem que o passado foi alterado e o que encontram é diferente de quando saíram. Descobrem o uso da máquina por Biff e vão até o passado para “endireitar” o “presente”. Nesta parte da trilogia, o cientista teoriza e se refere à mudança da história como a criação de um universo paralelo sempre que a SUA história (ou seja, aquela que ele quer) é alterada. Quando a alteração é feita por ele, esse universo paralelo deixa de existir, mesmo que seja só uma questão de viés o que separa uma de outra.
Na terceira e última parte de ‘De volta para o futuro’, desta vez é Doc Brown que tem problemas. Tendo o carro-máquina do tempo atingido por um raio, ele vai parar em 1885, no faroeste e, por lá fica. Mas tem alguns problemas. Ciente (no futuro) da história ocorrida no passado (o assassinato de Doc Brown), McFly usa a máquina do tempo para ajudar o cientista-guru. Então surge um problema: Doc Brown se apaixona e resolve jogar por terra toda a sua teoria defendida até então – de “não interferir no continuum espaço-tempo”.
O problema é, inclusive, tema de discussão entre os personagens. Ainda sem conhecer a mulher por quem se apaixonaria, Doc recebe a informação de que iria se apaixonar à primeira vista, ao que refuta: “A idéia de eu me apaixonar à primeira vista é uma idéia romântica. Não há racionalidade científica neste conceito”. Ao que McFly emenda: “vamos lá, Doc, isso não é científico”.
Depois de conhecer a moça e, como a história previa, se apaixonar à primeira vista, o cientista Doc Brow desiste de viajar para o futuro. Apaixonado, ele informa a seu pupilo que não irá mais viajar e, diante da resistência, diz: “O futuro não está escrito, ele pode ser mudado. Qualquer um pode fazer do futuro o que quiser. Não posso deixar essa foto (no caso, um documento histórico) determinar meu destino. Tenho de viver minha vida com o que acho certo em meu coração”. Ao que Marty Mc Fly o lembra de ser ele um cientista: “Doc, você é um cientista. O que é melhor, ouvir aqui (apontando no coração) ou aqui? (apontando no cérebro)”.
Doc, triste e desiludido porque terá de deixar seu grande amor no passado, diz: “Você está certo”. Logo depois, reconhece que é preciso voltar ao tempo “normal” e destruir a máquina do tempo (representa a ciência nesse embate com o irracional amor). “Viajar no tempo tornou-se muito doloroso”, argumenta Doc.
A história continua, McFly volta a 1985, e Doc – por problemas imprevistos – fica no passado. A máquina do tempo é destruída por um trem logo ao regressar a 1985. E, então, quando McFly acha que nunca mais verá seu tutor-cientista, ele surge em uma máquina do tempo-locomotiva a vapor, diretamente do passado, casado com seu grande amor e com dois filhos: Júlio e Verne, resultados da união ciência e do amor. Feliz em rever o amigo, McFly diz: “Doc, achei que nunca iria voltar”. Ao que Doc grita: “Nada segura um bom cientista”.
Diretora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Barbosa (foto) também é uma referência nacional em estudos sobre a participação feminina no meio científico. Conforme dados levantados pela pesquisadora, atualmente a graduação na universidade brasileira é composta por 56% de mulheres, mas na física elas são apenas 20%. No corpo docente universitário deste campo, há ainda uma redução drástica: apenas 16% dos professores são mulheres.
De acordo com o estudo de Márcia, realizado em 2005, o número de mulheres na ciência se reduz conforme a evolução da carreira: Um prova disso é que, na física, apenas 3% dos pesquisadores da categoria "1A" (que concentra maior titulação e a produção científica, dentre nove categorias do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento - CNPq) são mulheres. No entanto, em termos gerais, a média de produção de artigos acadêmicos das mulheres na física é o dobro dos homens. "Isso mostra que as mulheres têm que ser muito melhores que a média dos homens para se manter nas exatas", analisa.
Segundo ela, trata-se de um problema cultural que não se restringe ao Brasil. O fenômeno da diminuição das mulheres na carreira científica conforme a sua evolução é uma característica mundial e, na Europa, é conhecido como "tesoura". Alguns países já têm políticas públicas específicas para o caso: na Inglaterra, por exemplo, há um programa que incentiva as mulheres que abandonaram a sua carreira durante a gravidez a voltar a trabalhar. "Isso é especialmente importante em países que praticamente não têm assistência à mulher no período da maternidade, como creches". Outras iniciativas são mais pontuais, como por exemplo a simples construção de banheiros femininos em prédios de institutos de física. Em entrevista ao Blog, Márcia situa a condição feminina na área de física e mostra o caminho para superar os entraves cultuais.
Blog – Como está a participação das mulheres brasileiras em relação aos homens na Física?
Márcia – Comparando com outras áreas, a participação das mulheres na Física é bem mais baixa. Na graduação está em torno de 20%, mas à medida que vamos subindo ao longo da carreira esse número vai decrescendo, chegando a menos de 5% no topo da carreira. Há, portanto, dois problemas: começamos com um percentual baixo e ao longo da carreira esse percentual vai decaindo.
Blog – Em sua opinião, quais as razões que levam a esse cenário?
Márcia – Há duas razões importantes. Uma delas é a visão geral que a população tem sobre o cientista, particularmente de um físico. Pensa-se sempre num estereótipo, um profissional alienado, homem e nerd. Isso afasta definitivamente as meninas numa idade em que elas vão tomar decisões sobre a sua carreira profissional. Aos quinze ou dezesseis anos, elas ainda estão muito preocupadas com a aparência e com o grupo. Isso afasta as jovens da idéia de optar por essa carreira. Além disso, é uma carreira que os jovens do segundo grau não conhecem. Ninguém sabe ao certo como é interessante, excitante, como a gente descobre novas coisas fazendo ciência. As poucas meninas que saltam essa barreira, ao ingressarem na carreira, têm uma total falta de poder. Como há pouquíssimas mulheres no topo da carreira, elas não têm em quem se espelhar ou imaginar como seria o futuro delas. Elas vêem estereótipos, que em sua maioria são homens. Tanto isso é verdade, que um dos paises com maior percentual de mulheres na Física é a França, que ainda vive do velho modelo de Marie Curie (1867-1934) como cientista de destaque, que inspirou outras mulheres. Enquanto não conseguirmos ver mulheres brasileiras no topo da carreira, a gente não vai conseguir atrair um número maior de mulheres na base. Enquanto a gente não tiver mulheres na ciência, a ciência vai continuar sendo vista como um objeto masculino. Esse é o maior erro que pode haver numa sociedade, porque, na verdade, as mulheres são responsáveis pela maior parte do processo de educação de um país. Se elas tiverem preconceito contra a ciência elas irão repassar isso para os jovens. Esse é o grande perigo que vejo dentro da nossa cultura.
Blog – Em que medida esse preconceito impede que as mulheres cheguem ao topo da carreira?
Márcia – Se você tem uma maioria de homens no topo, eles vão fazer parte dos comitês e comissões. Normalmente, as pessoas avaliam outras pessoas como um espelho. Querem que os outros sejam iguais a ela. Se um pesquisador homem vai avaliar uma mulher ele não consegue avaliar com isenção. Isso é muito difícil, a menos que ele esteja consciente de que deve fazê-lo. Essa consciência a respeito da existência do preconceito não existia na sociedade brasileira. Há poucos anos a gente iniciou um movimento para chamar a atenção dos nossos colegas (homens) sobre o fato de que, muitas vezes, ao tomar uma decisão, eles estavam sendo preconceituosos. Vou dar um exemplo: numa certa época da minha carreira, quando solicitei promoção, um dos avaliadores justificou seu voto contrário afirmando o seguinte: não te promovi porque você ainda é uma menina muito novinha. Isso é preconceito. Em outras palavras, o que ele disse foi o seguinte: você não preenche o estereótipo da profissão, portanto não merece ser promovida. Também já ouvi relatos do tipo: não vamos promover essa profissional porque, para uma mulher, ela já está muito bem. Ou seja, há uma coisa subjacente na cabeça das pessoas de que, se o profissional é diferente deve ser deixando no canto dos diferentes. Mas, sempre que nós chamamos atenção para que os profissionais (homens) tivessem cuidado com o preconceito, as pessoas passaram ater mais cuidado para não reforçar esse preconceito.
Blog – Na sua avaliação, esse quadro está mudando? Márcia – As coisas só mudam sob pressão. Quando começamos a levantar estatísticas e ressaltar a qualidade do trabalho de um grupo de mulheres que estavam sendo incorretamente avaliadas para menos, o sistema passou a tomar medidas para corrigir isso. Se eu ficar sentada na minha sala só escrevendo artigos e não abrir a minha boca para reclamar, nada muda. Acredito, porém, que está mudando. Já é possível perceber mudança nos dados, principalmente nas bolsas de produtividade de pesquisa. Esses números estão melhorando. Mas só estão melhorando por causa da pressão. Isso no topo da carreira. Melhorar na base será conseqüência das mudanças no topo. À medida em que houver um número maior de mulheres, e com maior visibilidade, em cargos importantes, as jovens vão perceber que para chegar lá não precisa ser nenhum nerd e que qualquer cidadão, homem ou mulher, pode aspirar a uma carreira científica.